Portugal tornou-se casa para milhares de imigrantes brasileiros que aqui chegam com sonhos, mas também com a consciência de que o recomeço raramente é simples. A história de Bruno Andrade, conhecido artisticamente como Jotta B, é um retrato honesto desse processo. Não romantiza a imigração, mas mostra como a reinvenção, quando feita com estratégia e resiliência, pode gerar caminhos inesperados.

Cantor, profissional de marketing, produtor cultural e empreendedor local, Bruno construiu em Portugal uma trajetória híbrida, feita de palcos, bastidores, trabalho manual e comunicação direta com a comunidade.
A infância artística e a formação dentro da igreja
A relação de Bruno com a arte começou cedo. Ainda criança, improvisava apresentações em casa, dublava músicas, dançava e imitava artistas ao lado da irmã. A música sempre esteve presente no ambiente familiar. O pai cantava serestas, a mãe ouvia sertanejo, e a casa era atravessada por referências que iam de Alcione a Balão Mágico.
Aos sete anos, a entrada da família na igreja evangélica mudou radicalmente esse cenário. A música secular deixou de existir e toda a expressão artística passou a ser mediada pela religião. Foi nesse contexto que Bruno desenvolveu técnica vocal, presença de palco e disciplina. A igreja tornou-se, paradoxalmente, o espaço onde aprendeu a ser artista, ainda que com limites rígidos.
Quando sair da igreja foi também sair de si mesmo
Aos 19 anos, Bruno decidiu afastar-se da igreja. Não por rejeição à fé, mas por necessidade de entender quem era fora daquele ambiente. Veio então uma fase tardia de rebeldia, marcada pela tentativa de recuperar experiências que lhe haviam sido negadas. Esse período, longe de ser um desvio, acabou por preparar o terreno para decisões mais conscientes.
Aos 25 anos, escolheu estudar Marketing. A formação trouxe método, visão estratégica e uma leitura mais clara do mercado. Pouco tempo depois, deixou o Ceará, passou pelo Rio Grande do Sul e, em 2018, tomou a decisão que mudaria tudo: emigrar para Portugal.
Chegar a Portugal sem plano, mas com método
A chegada a Portugal foi marcada por incertezas. Bruno precisava trabalhar, regularizar-se e, ao mesmo tempo, reencontrar a sua identidade artística. Sem espaço imediato para cantar, criou uma alternativa. Idealizou um programa de rádio que lhe permitisse conhecer o mercado, entrevistar artistas e compreender o ecossistema cultural português.
O projeto nasceu de forma improvisada. Não havia nome, estrutura ou garantias. Apenas uma mensagem enviada a uma rádio brasileira em Portugal com uma proposta ambiciosa. O que parecia ingenuidade revelou-se coragem. Assim nasceu o POPSense, um programa que abriu portas no marketing, na música e na televisão.
Durante esse período, Bruno conciliava trabalho formal, rádio e eventos. A rotina era exaustiva, mas estratégica. Cada contacto era um investimento.
Música, mercado e validação em território estrangeiro

Com o tempo, Bruno voltou a compor. Explorou influências de soul, R&B e pop, afastando-se do repertório exclusivamente religioso. Gravou a primeira música, produziu o primeiro videoclipe e apresentou-o no palco do Casino Estoril. Em apenas dois anos em Portugal, já dividia espaços com artistas portugueses e brasileiros, participava em festivais e dava entrevistas.
A receção do público português foi determinante. Mais do que aplausos, houve abertura. Isso deu-lhe confiança para continuar.
Empreender fora dos palcos: a Mister Feitosa

Nem só de arte vive o imigrante. Para garantir estabilidade, Bruno entrou num setor inesperado: o ofício de sapateiro. Trabalhou quase quatro anos na área, aprendeu o métier e decidiu abrir o próprio negócio em Oeiras. A loja recebeu o nome Mister Feitosa, em homenagem ao avô, sapateiro e músico, figura marcante da sua história familiar.
Hoje, a loja tem uma clientela maioritariamente portuguesa. Para Bruno, o trabalho manual tornou-se também uma forma de equilíbrio emocional. Em momentos de ansiedade, o contacto direto com o ofício ajuda a recentrar.
Produção cultural, empoderamento e limites

A experiência acumulada levou-o à direção do concurso Miss Bumbum Verão. Mais do que um evento de beleza, o projeto foi pensado como espaço de autonomia criativa, inclusão e empoderamento feminino. O concurso abraça mulheres cis e trans e procura afastar-se de estereótipos fáceis.
O processo, no entanto, revelou também os limites. Sobrecarga, exigência emocional e a perceção de que uma equipa maior seria necessária nas próximas edições trouxeram maturidade ao projeto e ao próprio Bruno.
Comunicação como ponte entre comunidades
Outro capítulo importante é o programa “Tá Ligado – O Brasil em Portugal”, criado para dar voz à comunidade brasileira na Europa. O formato destaca histórias reais de empreendedores, artistas e imigrantes, valorizando trajetórias que raramente chegam aos grandes meios.
Para Bruno, comunicar é criar pontes. Seja na música, na televisão ou na loja de bairro, o objetivo é o mesmo: gerar ligação, reconhecimento e pertença.
O custo invisível da liberdade criativa
A reinvenção constante cobra um preço. Bruno fala abertamente sobre terapia, autocuidado e a importância de reconhecer limites. O equilíbrio entre criação, trabalho formal e vida pessoal não é automático. É construído diariamente, com disciplina e autoconhecimento.
A história de Bruno Andrade não é sobre sucesso rápido, nem sobre glamour permanente. É sobre adaptação, coragem e estratégia. Representa um novo perfil de imigrante em Portugal: alguém que entende que recomeçar exige humildade, mas também visão.
Entre o palco e o balcão, entre a arte e o ofício, Bruno construiu um caminho possível. Imperfeito, real e profundamente humano. É nessa intersecção que a imigração deixa de ser apenas sobrevivência e passa a ser construção de futuro.

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